Arquivo mensal: março 2012

Grandes expectativas

Vivemos na expectativa: do que o amanhã nos traz e, também, de tantas outras coisas…! O que complica nosso jogo de expectativas não é sua existência per se, mas a certeza de que, se não forem atingidas, podemos não ter uma nova chance. É como se jogássemos roleta russa desejando não ser premiado com a única bala do tambor: não há nada a fazer quando o gatilho dispara o invólucro de pólvora.

Apesar do olhar trágico e drástico, não é bem esse o viés que quero abordar: acho que, na vida, vivemos situações bem mais simples em que expectativas são ou não alcançadas; nosso grande desafio é aprender a lidar com o sucesso e fracasso constantes que elas nos apresentam.

Na semana passada, por exemplo, aceitei o desafio de dar um curso rápido para poucos alunos. Apesar de ser um tema sobre o qual não me sinto inseguro de falar e já estar relativamente acostumado a falar em público – inclusive para plateias maiores! – o que realmente me deixou “travado” foi ver que todos na sala de aula olhavam para mim esperando por respostas. O fato é que eu não tenho respostas – ninguém as tem. Mas nós procuramos assim mesmo. Pela primeira vez, entendi o que é estar do outro lado e, apesar de ter sido bem avaliado pelos alunos, continuo com a sensação de que eles saíram da sala na última aula com mais perguntas do que respostas.

Mas as expectativas vão além das outras pessoas: às vezes, esperamos algo do mundo. Grandes Esperanças, livro de Charles Dickens que, particularmente, considero um festival de soníferos, é justamente sobre esse tema e transformou-se num belo filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow.

A história do famoso Pip já foi adaptada inúmeras vezes e ainda hoje mexe com o imaginário de todos. O grande acerto de Dickens foi mostrar que as expectativas definem o ser humano e não somente fazem parte dele. O assunto será sempre atual porque carregamos conosco as expectativas e, com elas, a sensação de que podemos nos frustrar a cada instante.

Talvez isso explique a quantidade crescente de pacientes em tratamentos com ansiolíticos. Se, por um lado, não podemos viver sem esperar nada dos outros e do mundo, tampouco sabemos lidar com o crescente acúmulo de ansiedade resultantes das expectativas.

Algumas vezes, basta irmos até a última aula e fazer com que nossos alunos entendam que as perguntas são mais ricas do que as respostas. Outras vezes, precisamos abraçar uma pessoa e sussurrar algumas palavras em seu ouvido – palavras com sentido apenas para os dois. Muitas vezes precisamos parar, respirar e entender que expectativas frustradas são apenas isso -e que a vida seguirá seu curso.

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Para sempre é muito tempo

Textos sobre amigos sempre pecam pela pieguice. Até a Canção da América já cansou com seu “amigo é coisa para se guardar…” e ninguém mais coloca em dúvida a importância dos amigos – mesmo que o conceito tenha se tornado quase desprovido de seu sentido original depois do surgimento das Redes Sociais. Para mim, amigo é alguém que acrescenta algo à nossa vida, que possui um lugar que não pode ser preenchido por uma outra pessoa qualquer. Amigo nem sempre é para sempre. Amigo pode virar conhecido e conhecido pode virar amigo. Amigo pode ser uma pessoa que te deixa com raiva e também pode ser uma pessoa que você prefere não ver com muita frequência. Amigo é meio sem regra.

Mas o que não pode acontecer é você julgar amigo de amigo. Particularmente, eu tendo a bater em retirada quando percebo que um amigo está se cercando de pessoas das quais não gosto. Não vejo muito sentido em criticar para o amigo quem ele escolheu como companhia – e pode ser que ele não me veja mais como uma pessoa com quem tem afinidades. Acontece. A única regra que considero indiscutível para qualquer amizade é o ‘respeito’. Sem ele, não há relação humana que se mantenha. Quando acaba o respeito, é garantido que a amizade acaba junto.

Algumas vezes ouço um comentário ou outro de algum amigo falando sobre outro: “Como você o aguenta?” Mesmo sabendo que alguns dos meus amigos são pessoas de convívio complicado, a única explicação que posso dar é a mais simples – por mais difícil que possam parecer, esses amigos também acham o respeito essencial. Se são para sempre por isso?

Na história do Cão e da Raposa, esta última fala para a Coruja que será amiga do Cão para sempre, ao que a Coruja responde: “Minha querida, para sempre é muito tempo.”

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O pior livro de todos os tempos: a Bíblia

Terminei de ler recentemente um livro intitulado “Being gays is disgusting or God likes the smell of burning fat”, escrito por Edward Falzon. Falzon passa pelos textos da Bíblia com dois objetivos principais: questionar as “verdades” contidas na obra e, principalmente, debochar dos absurdos pouco mencionados pelas religiões que levam a Bíblia ao pé da letra. Seu objetivo não é desrespeita-las, mas fazer um alerta: “Ninguém deveria aceitar cegamente algo que não faz sentido, não importa quão fervorosamente isso é apresentado e repetido… e repetido… e repetido.” Em um dos trechos, que faz alusão ao título, ele comenta como é digno de nota o fato da Bíblia considerar sexo entre pessoas do mesmo sexo mais grave do que zoofilia.

O tom usado por Falzon vai do politicamente incorreto à heresia total e completa. Deus conversa com Moisés usando gírias como “‘sup?'” e “m’kay?”. O livro vale pelas boas risadas, mas também por apontar aquilo que muita gente já sabe: a Bíblia é, provavelmente, um dos livros mais mal escritos de todos os tempos. Falzon aponta as contradições entre os trechos, menções aleatórias a personagens que surgem e desaparecem sem deixar vestígios (o que é conhecido como deus ex-machina no cinema: a solução surgida do nada para compensar uma falha do roteiro) e, principalmente, a ilusão de que todas aquelas páginas tem muito conteúdo. Em alguns capítulos, ele apenas indica ao leitor que aquele trecho da Bíblia é uma repetição de outro e se recusa a reproduzi-lo.

Falzon não é o primeiro a apontar os perigos da Bíblia. Os Gershwin, em sua música “It ain’t necessarily so”, questionam também as verdades dela:

It ain’t necessarily so
It ain’t necessarily so
The t’ings dat yo’ li’ble (The things that you’re liable)
To read in de Bible, (To read in the Bible)
It ain’t necessarily so.

A música faz parte de uma peça na qual um dos personagens lista histórias famosas da Bíblia para mostrar como podem ser absurdas se interpretadas literalmente, algo que muitos religiosos insistem em fazer até hoje.

Então, por que o título? Como toda obra, a qualidade de um livro está dividida em duas – parte dela depende do autor (algo complicado de avaliar no caso da Bíblia), e parte dela depende do leitor. Um leitor medíocre pode transformar um livro num verdadeiro lixo. E, infelizmente, os leitores da Bíblia são, em sua maioria, medíocres – o que a transformou no pior livro de todos os tempos.

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