Arquivo da categoria: Pensata

Comemoração de golpe

Esse vídeo da ótima Agnes Zuliani no Terça Insana se faz necessário quando alguns julgam pertinente comemorar o aniversário de Golpe de 64.  Não é nem mau gosto; é debochar de um país inteiro.

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Grandes expectativas

Vivemos na expectativa: do que o amanhã nos traz e, também, de tantas outras coisas…! O que complica nosso jogo de expectativas não é sua existência per se, mas a certeza de que, se não forem atingidas, podemos não ter uma nova chance. É como se jogássemos roleta russa desejando não ser premiado com a única bala do tambor: não há nada a fazer quando o gatilho dispara o invólucro de pólvora.

Apesar do olhar trágico e drástico, não é bem esse o viés que quero abordar: acho que, na vida, vivemos situações bem mais simples em que expectativas são ou não alcançadas; nosso grande desafio é aprender a lidar com o sucesso e fracasso constantes que elas nos apresentam.

Na semana passada, por exemplo, aceitei o desafio de dar um curso rápido para poucos alunos. Apesar de ser um tema sobre o qual não me sinto inseguro de falar e já estar relativamente acostumado a falar em público – inclusive para plateias maiores! – o que realmente me deixou “travado” foi ver que todos na sala de aula olhavam para mim esperando por respostas. O fato é que eu não tenho respostas – ninguém as tem. Mas nós procuramos assim mesmo. Pela primeira vez, entendi o que é estar do outro lado e, apesar de ter sido bem avaliado pelos alunos, continuo com a sensação de que eles saíram da sala na última aula com mais perguntas do que respostas.

Mas as expectativas vão além das outras pessoas: às vezes, esperamos algo do mundo. Grandes Esperanças, livro de Charles Dickens que, particularmente, considero um festival de soníferos, é justamente sobre esse tema e transformou-se num belo filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow.

A história do famoso Pip já foi adaptada inúmeras vezes e ainda hoje mexe com o imaginário de todos. O grande acerto de Dickens foi mostrar que as expectativas definem o ser humano e não somente fazem parte dele. O assunto será sempre atual porque carregamos conosco as expectativas e, com elas, a sensação de que podemos nos frustrar a cada instante.

Talvez isso explique a quantidade crescente de pacientes em tratamentos com ansiolíticos. Se, por um lado, não podemos viver sem esperar nada dos outros e do mundo, tampouco sabemos lidar com o crescente acúmulo de ansiedade resultantes das expectativas.

Algumas vezes, basta irmos até a última aula e fazer com que nossos alunos entendam que as perguntas são mais ricas do que as respostas. Outras vezes, precisamos abraçar uma pessoa e sussurrar algumas palavras em seu ouvido – palavras com sentido apenas para os dois. Muitas vezes precisamos parar, respirar e entender que expectativas frustradas são apenas isso -e que a vida seguirá seu curso.

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Para sempre é muito tempo

Textos sobre amigos sempre pecam pela pieguice. Até a Canção da América já cansou com seu “amigo é coisa para se guardar…” e ninguém mais coloca em dúvida a importância dos amigos – mesmo que o conceito tenha se tornado quase desprovido de seu sentido original depois do surgimento das Redes Sociais. Para mim, amigo é alguém que acrescenta algo à nossa vida, que possui um lugar que não pode ser preenchido por uma outra pessoa qualquer. Amigo nem sempre é para sempre. Amigo pode virar conhecido e conhecido pode virar amigo. Amigo pode ser uma pessoa que te deixa com raiva e também pode ser uma pessoa que você prefere não ver com muita frequência. Amigo é meio sem regra.

Mas o que não pode acontecer é você julgar amigo de amigo. Particularmente, eu tendo a bater em retirada quando percebo que um amigo está se cercando de pessoas das quais não gosto. Não vejo muito sentido em criticar para o amigo quem ele escolheu como companhia – e pode ser que ele não me veja mais como uma pessoa com quem tem afinidades. Acontece. A única regra que considero indiscutível para qualquer amizade é o ‘respeito’. Sem ele, não há relação humana que se mantenha. Quando acaba o respeito, é garantido que a amizade acaba junto.

Algumas vezes ouço um comentário ou outro de algum amigo falando sobre outro: “Como você o aguenta?” Mesmo sabendo que alguns dos meus amigos são pessoas de convívio complicado, a única explicação que posso dar é a mais simples – por mais difícil que possam parecer, esses amigos também acham o respeito essencial. Se são para sempre por isso?

Na história do Cão e da Raposa, esta última fala para a Coruja que será amiga do Cão para sempre, ao que a Coruja responde: “Minha querida, para sempre é muito tempo.”

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O pior livro de todos os tempos: a Bíblia

Terminei de ler recentemente um livro intitulado “Being gays is disgusting or God likes the smell of burning fat”, escrito por Edward Falzon. Falzon passa pelos textos da Bíblia com dois objetivos principais: questionar as “verdades” contidas na obra e, principalmente, debochar dos absurdos pouco mencionados pelas religiões que levam a Bíblia ao pé da letra. Seu objetivo não é desrespeita-las, mas fazer um alerta: “Ninguém deveria aceitar cegamente algo que não faz sentido, não importa quão fervorosamente isso é apresentado e repetido… e repetido… e repetido.” Em um dos trechos, que faz alusão ao título, ele comenta como é digno de nota o fato da Bíblia considerar sexo entre pessoas do mesmo sexo mais grave do que zoofilia.

O tom usado por Falzon vai do politicamente incorreto à heresia total e completa. Deus conversa com Moisés usando gírias como “‘sup?'” e “m’kay?”. O livro vale pelas boas risadas, mas também por apontar aquilo que muita gente já sabe: a Bíblia é, provavelmente, um dos livros mais mal escritos de todos os tempos. Falzon aponta as contradições entre os trechos, menções aleatórias a personagens que surgem e desaparecem sem deixar vestígios (o que é conhecido como deus ex-machina no cinema: a solução surgida do nada para compensar uma falha do roteiro) e, principalmente, a ilusão de que todas aquelas páginas tem muito conteúdo. Em alguns capítulos, ele apenas indica ao leitor que aquele trecho da Bíblia é uma repetição de outro e se recusa a reproduzi-lo.

Falzon não é o primeiro a apontar os perigos da Bíblia. Os Gershwin, em sua música “It ain’t necessarily so”, questionam também as verdades dela:

It ain’t necessarily so
It ain’t necessarily so
The t’ings dat yo’ li’ble (The things that you’re liable)
To read in de Bible, (To read in the Bible)
It ain’t necessarily so.

A música faz parte de uma peça na qual um dos personagens lista histórias famosas da Bíblia para mostrar como podem ser absurdas se interpretadas literalmente, algo que muitos religiosos insistem em fazer até hoje.

Então, por que o título? Como toda obra, a qualidade de um livro está dividida em duas – parte dela depende do autor (algo complicado de avaliar no caso da Bíblia), e parte dela depende do leitor. Um leitor medíocre pode transformar um livro num verdadeiro lixo. E, infelizmente, os leitores da Bíblia são, em sua maioria, medíocres – o que a transformou no pior livro de todos os tempos.

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Diário do infiel

Passeando por Paris no ano passado, entrei numa livraria (tipo de estabelecimento que eu faço questão de visitar em qualquer país) e acabei esbarrando no “Diário do infiel”, de Pierre Salducci. O tema é algo que me atrai (talvez quase na mesma medida em que me desagrada), então resolvi comprar.

O Prefácio já soa como uma desculpa do autor, que diz não se lembrar direito dos acontecimentos – encontrada em um caderno que era seu diário aos 25 anos – e parece esperar ser perdoado por isso. A história é banal: Pierre está sufocado pelo relacionamento com Jean e decide morar em um apartamento separado (ainda que no mesmo prédio). Logo, ele está envolvido com Christophe, um jovem que divide apartamento com um grupo sempre promovendo festas regadas a bebidas e drogas, e Kamel, um garoto ainda com certa inocência e vindo de uma família conservadora.

Pierre Salducci não é um grande escritor (apesar do livro se autoproclamar um sucesso na época em que foi publicado pela primeira vez), mas não é exatamente o estilo do texto que o torna enfadonho: o problema é que o autor tenta, a todo custo, racionalizar as traições que comete para poder justificar a sua atitude e ser considerado inocente. Como se trata de um diário, as páginas parecem ser sua maneira de tentar perdoar a si mesmo pelo que ele, no fundo, considera errado. E a partir de um momento, os leitores simplesmente perdem todo o respeito por ele – aqueles que consideram traição algo completamente condenável o abandonam porque suas justificativas começam a ficar patéticas; já aqueles que consideram traição como algo normal o abandonam porque se cansam das justificativas para algo que não condenam.

Moral da história? Quem trai deve fazê-lo conscientemente e não fingir ter um código de valores que leva em consideração terceiros. Já que é pra fazer a merda, então desencane da pose de filósofo de relacionamentos contemporâneos: não cai bem!

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Sr. Ninguém, um gato e infinitas possibilidades

Mr. Nobody é um filme de 2011 com Jared Leto, Diane Kruger, Rhys Ifans e Sarah Polley sobre as vidas possíveis do personagem-título. O tema já foi explorado em outros filmes anteriores, de maneiras diferentes. “Corra, Lola, corra” apoiou-se no estilo das ‘vidas’ dos personagens de video-game, que têm a oportunidade de aprender algo e aplicar a experiência na vida seguinte. “De caso com o acaso” preferiu um viés de comédia romântica e deu à personagem de Gwyneth Paltrow duas opções – pegar ou não o metrô e, por consequência, flagrar ou não o namorado com outra.

O curioso em Mr. Nobody é que ele leva o espectador ao longo de mais de duas horas sem explicar ao certo qual vida é a “original”, quais são apenas “alternativas” e, em alguns momentos, qual opção levou a outra. A história é contada pelo próprio Mr. Nobody, o último ser humano mortal vivendo no futuro, mas ele tem problemas de memória e por vezes fica difícil saber o que está inventando – tudo para explorar o tema das possibilidades.

Dentre as obsessões contemporâneas, essa é uma das mais significativas porque faz parte do nosso dia a dia. Cada escolha deixa para trás uma série de vidas não vividas e muitas vezes ficamos presos ao “e se?” que ela traz. São as possibilidades – vividas ou não – que dificultam nosso desprendimento do passado: estamos constantemente olhando por cima dos ombros para ter certeza de que não deixamos algo valioso para trás. Aquele “sim” ou aquele “não” estragaram nosso presente? Ou ele seria pior se tivéssemos feito a escolha contrária?

No fundo, estamos obcecados com as possibilidades ou apenas queremos validar as nossas escolhas? Talvez o cantor francês Fabrice Mauss tenha resumido bem essa questão em sua música “Le Chat” (O gato):

Eu teria amado ser um gato

Para ter sete vidas

E poder te dizer, apesar disso tudo,

Que minha preferida é esta.

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Pequenas irregularidades de personalidade

Raramente percebemos o abismo que nos separa da maioria dos seres humanos, tão acostumados estamos de nos cercarmos de pessoas mais ou menos semelhantes a nós mesmos. É somente quando saímos da nossa zona de conforto/do nosso círculo de amizades que percebemos esse vasto espaço que, se nos arriscamos a vencer, traz muitas lições.

Mas no meu caso, até os amigos me acham muito peculiar – o que não deixa de ser irônico se eu pensar no quanto tentei passar despercebido e ser o mais comum possível nos anos do auge da minha timidez.

Talvez o que mais me afaste das outras pessoas – a minha pequena irregularidade de personalidade – seja a visão dos relacionamentos. Há algumas semanas, conversando com uma amiga do trabalho que conhecia pouco da minha história, relatei um pouco do que aconteceu comigo nos últimos anos. Ao final, depois de muito debate, ela recomendou que eu tornasse tudo mais fácil.

Porque, de fato, eu gosto das coisas difíceis. Quanto menos eu compreender, mais me interessa. Quanto mais complicado, mais apaixonado. Quanto menos emocionante, menos vínculo.

O que dizer, por exemplo, do caso que durou meses sem sequer um beijo, em que ofensas por SMS em plena madrugada intercalavam-se com momentos românticos em família?

Mas quer saber?  Mais insanos são aqueles que, constantemente, buscam meus conselhos. Sinceramente…!

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