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Grandes expectativas

Vivemos na expectativa: do que o amanhã nos traz e, também, de tantas outras coisas…! O que complica nosso jogo de expectativas não é sua existência per se, mas a certeza de que, se não forem atingidas, podemos não ter uma nova chance. É como se jogássemos roleta russa desejando não ser premiado com a única bala do tambor: não há nada a fazer quando o gatilho dispara o invólucro de pólvora.

Apesar do olhar trágico e drástico, não é bem esse o viés que quero abordar: acho que, na vida, vivemos situações bem mais simples em que expectativas são ou não alcançadas; nosso grande desafio é aprender a lidar com o sucesso e fracasso constantes que elas nos apresentam.

Na semana passada, por exemplo, aceitei o desafio de dar um curso rápido para poucos alunos. Apesar de ser um tema sobre o qual não me sinto inseguro de falar e já estar relativamente acostumado a falar em público – inclusive para plateias maiores! – o que realmente me deixou “travado” foi ver que todos na sala de aula olhavam para mim esperando por respostas. O fato é que eu não tenho respostas – ninguém as tem. Mas nós procuramos assim mesmo. Pela primeira vez, entendi o que é estar do outro lado e, apesar de ter sido bem avaliado pelos alunos, continuo com a sensação de que eles saíram da sala na última aula com mais perguntas do que respostas.

Mas as expectativas vão além das outras pessoas: às vezes, esperamos algo do mundo. Grandes Esperanças, livro de Charles Dickens que, particularmente, considero um festival de soníferos, é justamente sobre esse tema e transformou-se num belo filme com Ethan Hawke e Gwyneth Paltrow.

A história do famoso Pip já foi adaptada inúmeras vezes e ainda hoje mexe com o imaginário de todos. O grande acerto de Dickens foi mostrar que as expectativas definem o ser humano e não somente fazem parte dele. O assunto será sempre atual porque carregamos conosco as expectativas e, com elas, a sensação de que podemos nos frustrar a cada instante.

Talvez isso explique a quantidade crescente de pacientes em tratamentos com ansiolíticos. Se, por um lado, não podemos viver sem esperar nada dos outros e do mundo, tampouco sabemos lidar com o crescente acúmulo de ansiedade resultantes das expectativas.

Algumas vezes, basta irmos até a última aula e fazer com que nossos alunos entendam que as perguntas são mais ricas do que as respostas. Outras vezes, precisamos abraçar uma pessoa e sussurrar algumas palavras em seu ouvido – palavras com sentido apenas para os dois. Muitas vezes precisamos parar, respirar e entender que expectativas frustradas são apenas isso -e que a vida seguirá seu curso.

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